segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Um toque de ingenuidade inocente


Descalço as botas e calço as galochas da minha avó, passo ao portão ferrugento do quintal e entro na horta na minha infância.
Ao pé da capoeira das galinhas continua o mesmo monte de teias de aranha que me assustavam em pequenina. Passo por elas o mais confiante possível mas em passo de corrida, com receio que alguma me caía em cima, continuo com o mesmo pavor daquelas malditas teias.
Sigo pelo caminho de terra observando bocados de bonecas estragadas. O pequeno compartimento onde obrigava a minha tia a brincar aos cafés comigo, mantinha as chávenas nas prateleiras.
Arranco uma rosa do roseiral e sento-me debaixo de uma arvorezinha observando os gatos vadios, independentes, que me lançavam olhares ameaçadores, mas que mesmo assim não deixavam de ser queridos. Lembro-me da ingenuidade que dantes tinha ao tentar apanhá-los, e ri. Todos os dias, sempre que passava um gatito eu tentava chama-lo e, como é obvio, os gatos assustadiços fugiam, enfim, coisas de criança.
Nada tinha mudado, parecia que tudo me esperava, eu sorri com ternura ao olhar a mangueira velha que tanto usava no Verão.
Peguei na vassoura e ri-me ao lembrar de quando a usava como microfone e dava um grande espectáculo, era sempre aplaudida pelo público mais especial, a minha avó.
Perdida em memórias carinhosas deixei-me ficar.
Já estava tarde, levanto-me e sigo o mesmo caminho de terra, passo pela capoeira das galinhas e ponho lá milho. Calço as minhas botas e digo: - óh avó, tens que tirar aquelas teias de aranha da capoeira das galinhas, sabes que tenho medo!
Dou-lhe um beijinho e, antes de sair ao portão tento apanhar um gatinho, mas os meus esforços foram em vão, ele fugira.
Mwezi

domingo, 17 de janeiro de 2010

Routine de tout les jours ( Uma pequena declaração de amizade )


Era o fim de mais um dia, sem quebrar a minha efectiva rotina, tentava escrever algo com a minha guitarra, algo que me soasse bem e que não destoasse a noite linda que estava lá fora, o céu estava incrivelmente cheio de estrelas, conseguia ver a lua.
Imaginei-te como sempre a meu lado, a olhar-me a avaliar a musica que saía dos meus dedos, agora, inconscientemente.
Era doce melodia, serena como os teus olhos, serena como o meu coração, que ao pensar em ti acalmava, batendo simplesmente por ti, a chamar o teu amor.

bipbipbipbip.
Pousei a guitarra e deixei aquela ilusão escura que não me deixava ver a realidade, deixei que voasses para longe do meu quarto e do meu pensamento.
Abri a sms e vi que era da melhor amiga, tinha saudades de falar com ela, a maldita distância é-me tão fiel que não me larga, mesmo quando quero passar algum tempo com a melhor amiga. O telemóvel é a única maneira de manter o contacto, mas mesmo assim de nada sinto falta, não sinto falta de ir ao cinema com ela, nem de ir fazer compras, ela esta sempre comigo, apesar dos quilómetros, a amizade supera todos os obstáculos, ela consegue abraçar-me e proteger-me de tudo o que me possa assustar ou fazer chorar.
Deitei-me na cama e respondi à sms entrando num outro mundo, num mundo secreto onde eu e a melhor amiga dominávamos tudo, desafiávamos as leis da física, e juntas, saiamos sempre vencedoras.
É totalmente inescritível o valor dos momentos passados com ela, a quilómetros de distância, mas ainda assim, abraçadas. Posso tropeçar e ter vontade de ficar no chão, mas sei que ela jamais deixará, posso chorar por ter feito uma ferida no joelho, mas ela limpará as lágrimas e mostrará que a dor vai passar e tudo vai sarar...aí, noto que alguns choros são uma idiotice. Ela faz-me perguntar a mim mesma, porque choro, se tenho tantos mais motivos para sorrir?
Adormeço com um sorriso no rosto, com a certeza que amanhã ela mandará outra sms de bom dia, com a certeza que vou passar mais um dia com ela, com o meu orgulho, o meu ídolo.
Mwezi

sábado, 2 de janeiro de 2010

(nossa) Força

O sol mostrava-te os seus últimos raios mais belos, reflectia-se no mar. O vento soprava e batia contra ti com força. Tanta beleza, tanta magia, nada te comovia! Calado, triste, ali... Cada vez mais perto do fim da falésia, cada vez mais inseguro.
Uma lagrima cai-te pelo rosto, perdes as forças e quase caís.
O teu pedido de ajuda secreto tocou-me.
Apesar da distância, senti a tua lagrima cair como se fosse no meu próprio rosto.
Corro para ti, corro o mais rápido que consigo. Até que te vejo. Apróximo-me devagar. Dou-te a mão, abraço-te com carinho e amizade.
O vento sopra tão mais forte, de repente pára!
Tu abres os olhos e sorris.
Eu sorrio e digo: - Disseste-me que tudo com o tempo passa, que tudo com um pouco de paciência se resolve! Será que é verdade? Eu digo-te que por vezes o tempo é preguiçoso demais para resolver os problemas...chorar faz bem...mas desistir? Que atitude tão fraca! Nunca se desiste, jamais. Confia em mim e não no tempo. Confia nos teus amigos e principalmente em ti próprio.
Aprende com os erros, com o sofrimento, até que os problemas se tornem insignificantes e brilhantes estrelas no imenso céu que é a tua vida.


Mwezi

Crónica - Sub-estilos urbanos/ Descriminação : O OLHAR NEGRO

Vi alguém a apontar com o olhar e a segredar, ao ouvido do seu companheiro "normal", a quão ridícula estava a menina que passava sozinha pelo pátio, toda vestida de preto com um passo firme e pesado, dado pelas botas invulgares de plataforma também negras.
Ela não olhava de esguelha, não se deu ao trabalho de apontar o dedo a ninguem, passava calada ouvindo simplesmente o chapinhar dos seus passos que passavam por entre as poças sem desviar, assim como na vida, nunca se desviou do que é, nunca receou em mostrar o seu verdadeiro "eu", nunca pensou no que as ditas "pessoas normais" pudessem achar.
Parei para pensar e ri para não chorar.
O que será afinal o ridículo?
Será a pessoa que se veste como o seu gosto manda, a que vive a sua vida sem precisar de opiniões?
Ou será a pessoa que goza, aponta, comenta, que olha de lado?
Uma vez a minha mãe disse-me: " se fossemos todos iguais andavamos todos vestidos de amarelo, e perderia toda a piada."
Gozar é ser ridículo, não ter personalidade é ser ridículo, descriminar alguem que goste de mostrar a sua personalidade em tudo é ridículo.
Não existe o termo "pessoas normais", pois o normal é ser eu.
Apontar o dedo sim, mas só a nós próprios, não para opinar sobre os outros.



mwezi